A transformação da consciência em sabedoria
 na escola Consciência-apenas chinesa
de acordo com o “Cheng Weishi Lun”

 

 

por Ronald Epstein

 

(Originalmente publicado em Vajra Bodhi Sea, Jan., Fev. e Mar. de 1985. Copyright por Vajra Bodhi Sea. Permisão garantida para cópias únicas feitas para uso pessoal. Comentários e correções podem ser enviados para o endereço de email do autor: namofo@pacific.net.)

A versão online está em:  http://online.sfsu.edu/~rone/Buddhism/Yogacara/TRANSFORMATION%20OF%20CONSCIOUSNESS.htm

 

 

Introdução

Na escola Consciência-apenas chinesa de budismo, o Estado Búdico, caracterizado pela mente perfeitamente iluminada da verdadeira talidade (bhutatathata) é entendido como a realização final de um caminho sistemático e gradual. O Estado Búdico não é um objetivo que é alcançado através de um conhecimento intelectual especial. Ao invés disso, é o produto final de uma transformação interna fundamental de toda a atividade mental. Na linguagem da Consciência-apenas, esse processo é referido como a transformação da “consciência,” que tem apego à distinções como sua natureza básica, em “sabedoria”, que é por natureza completamente livre de apego. “Sabedoria” dessa maneira, indica um tipo de funcionamento mental completa, qualitativa e radicalmente diferente. O propósito deste ensaio é duplo:

  1. delinear brevemente os estágios da transformação e
  2. depois de a transformação estar completa e o Estado Búdico ter sido realizado, indicar como o aspecto imanente do Estado Búdico utiliza a sabedoria para funcionar no mundo.

Abaixo tentaremos fazer um esboço das prescrições dadas pela escola para livrarmo-nos dos obstáculos básicos no caminho para o Estado Búdico e indicar brevemente a maneira pela qual  funciona-se no mundo depois destes obstáculos terem sido removidos. .

O sistema das oito consciências

A escola consciência apenas descreve a mente como um sistema de sete consciências ativas (vijnana), todas as quais se desenvolvem da oitava consciência, ou consciência armazém. Esta ultima é passiva e contem os potenciais, ou “sementes” (bija), para o desenvolvimento e atividade das primeiras sete consciências. A sétima consciência contém o senso de eu ou individualidade egoística, com a qual ela macula as primeiras seis consciências. A sexta consciência é um centro de processamento perceptivo e cognitivo, enquanto que as cinco primeiras consciências são o apercebimento [através] dos olhos, ouvidos, nariz, língua e corpo.

Apesar de que, com a emanação destas consciências à partir da oitava, seja gerada uma divisão formal entre elas, esta diferenciação é totalmente baseada em distinções mentais. As oito ainda são basicamente “uma.” Para usar uma analogia simples, vamos pensar num quarto com sete lâmpadas. Você aperta o interruptor e as sete lâmpadas distintas brilham. Desligue o interruptor e as sete lâmpadas se apagam. Mesmo assim, só há uma corrente elétrica e sua origem é comparável com a consciência armazém ou, da maneira como é entendida na transformação da consciência, com a mente iluminada.

O sistema das oito consciências e dos darmas mentais (chaittas) que surgem juntamente com elas e são dependentes delas, foi desenvolvido como uma parte importante de uma psicologia pragmática da mente. O sistema pode ser usado para descrever de uma maneira mais acurada e prática, tanto o funcionamento mental quanto as técnicas específicas empregadas no caminho para a iluminação do Estado Búdico. Ele provê uma maneira de explicar processos mentais sem recorrer à noções de um eu real e permanente (atman) ou de objetos (darmas) reais e permanentes externos (e internos). Todos reinos, efetivos ou potenciais, da experiencia são mostrados como estando contidos nas transformações da consciência e aparecem como manifestações da mente que fabrica distinções.

Não obstante, devido ao nosso apego ao eu e nossa crença na realidade deste e na realidade dos “objetos” (darmas) que nós percebemos e entendemos como sendo o mundo externo, a nossa verdadeira natureza, bem como do mundo, é obscurecida de maneira que nós permanecemos sem ter ciência dela.

OS TIPOS DE APEGO

Os obstáculos básicos que surgem do caráter criador de distinção da consciência são as divisões do mundo em:

  1. sujeito, ou aquele que se agarra à distinções (o observador), e
  2. objeto, aquelas distinções que são agarradas (o observado).

Esta distinção ocorre em vários níveis e é refletida em cada uma das oito consciências. O observador corresponde ao apego ao eu, o observado ao apego aos darmas. O primeiro é geralmente referido como o 'obstáculo das aflições' e o segundo como o 'obstáculo do conhecível'. Estes obstáculos ou apegos são de dois tipos:

  1. inatos e
  2. distintos ou aprendidos.

Os apegos inatos são bastante sutis e tem existido desde um tempo sem princípio, como parte da condição humana (ou mais genericamente, da [condição dos seres] sencientes). Os apegos distintos, por outro lado, são mais grosseiros e surgem da criação de distinções dos nossos processos perceptivos e cognitivos. Estes apegos, os apegos inato e distinto ao eu, e os apegos inato e distinto aos dharmas, são os únicos obstáculos à realização do Estado Búdico.

A) O APEGO AO EU

O apego inato ao eu é duplo. Ao tomar a oitava consciência – mais especificamente sua “parte percebida” – como seu objeto, a sétima consciência gera uma imagem contínua da oitava consciência ou consciência armazém, como um eu real e permanente. Depois, ao tomar a manifestação dos cinco agregados (forma, sensação, cognição, formação [mental] e consciência) como seu objeto, a sexta consciência gera vários conceitos não-contínuos de eu.

O apego distinto ao eu pertence exclusivamente ao reino da sexta consciência e é muito mais grosseiro em natureza, do que o apego o apego inato da sétima consciência. A sexta consciência ou toma vários aspectos dos agregados como objetos e os concebe como sendo o eu real, ou gera independentemente auto-conceitos e os considera como sendo o eu real. Tal conceitualização errônea é geralmente o resultado de ensinamentos religiosos ou filosóficos mal informados.

B) O APEGO AOS DHARMAS

O apego inato aos darmas também é duplo. Na medida em que a sétima consciência toma a oitava consciência como seu objeto, também pode usá-la – mais especificamente, sua “porção percebida” – para gerar uma imagem mental contínua da oitava consciência como dharmas. Da mesma forma, a sexta consciência pode tomar aspectos dos agregados e das faculdades perceptivas e seus objetos, como sendo darmas reais; entretanto, ao contrário da sétima consciência, o funcionamento da sexta consciência desta maneira é descontínuo.

O apego distinto aos darmas é exclusivamente um aspecto do funcionamento da sexta consciência e é relativamente mais grosseiro em natureza. A sexta consciência pode ou tomar os conceitos de darmas do budismo hinaiana como sendo reais, ou tomar as várias categorias ou elementos objetivos de escolas não-budistas como sendo reais. Em outras palavras, ela confunde seus próprios conceitos sobre uma realidade externa com a realidade externa verdadeira.

O CAMINHO DE CINCO ESTÁGIOS DO BODHISATTVA

Agora que nós delineamos brevemente a natureza dos obstáculos à realização do Estado Búdico, estamos numa posição de discutir as prescrições da escola Consciência-apenas para a eliminação deles. Este é o gradual processo de cinco estágios conhecido como o Caminho do Bodisatva. Ele começa o nascimento da intenção de se tornar totalmente iluminado (bodhichittotpada), o que marca a entrada no primeiro estágio, aquele onde se reúnem provisões ou recursos. Ele é seguido pelos estágios da Aplicação, Visão, Desenvolvimento meditativo e culmina no estágio final que é o da Perfeição; a perfeita iluminação do Estado Búdico, a total realização da verdadeira talidade.

l. O ESTÁGIO DOS RECURSOS

No estágio do desenvolvimento de seus recursos [sambhara-margha], o bodisatva desenvolve sua profunda fé e compreensão dos ensinamentos da Consciência-apenas. Durante este período, o bodisatva é meramente capaz de subjugar o surgimento na consciência dos aspectos grosseiros, aprendidos, de observador e observado, isso é, do apego ao eu e aos darmas. Em outras palavras, ele aprende a ver através da análise conceitual, aprendida, de perceber e pensar sobre o mundo em termos de um eu real e objetos reais, trocando isto por análise dármica. Ele faz isso ao aprender à impedir tais conceitos de surgirem e então formarem uma “bola de neve” de atividades verbais e físicas (a criação do carma). Assim ele é capaz de utilizar efetivamente a estrutura doutrinária da escola Consciência-apenas, em seu pensamento e funcionamento no mundo cotidianos.

II. O ESTÁGIO DA APLICAÇÃO

No estágio seguinte, o da Aplicação [prayoga-margha], concentração e insight são desenvolvidos através de práticas meditativas preliminares, chamadas de 'Os Quatro Auxílios à Penetração':

  1. Calor,
  2. Pico,
  3. Paciência e
  4. Darmas Mundanos Superiores

O Calor, o Pico e as duas primeiras porções do Auxílio da Paciência, são praticados em meditações nas quais se entra nos três primeiros dhyanas. O resto da Paciência e do Auxílio dos Darmas Mundanos Superiores, só podem ser praticados ao entrar-se no quarto dhyana. Durante esse processo gradual, não apenas a manifestação do aspecto grosseiro, aprendido, de percebedor e percebido é subjugado, de tal forma que não mais surja na consciência, mas também as sementes de sua manifestação, que estão armazenadas na oitava consciência, são completamente destruídas. Uma vez que as sementes foram destruídas, elas não podem germinar como darmas, dessa forma, este aspecto grosseiro do apego ao eu e aos darmas não poderá nunca mais surgir. É a completude deste processo que permite a entrada no terceiro estágio.

III. O ESTÁGIO DO CAMINHO DA VISÃO

A entrada no Caminho da Visão [darshana-margha] provê a primeira real experiência da verdadeira talidade. Ela marca o abandono do fluxo mundano e a entrada no fluxo dos Abençoados. Ela corresponde à entrada na primeira das “terras” (bhumi) do caminho do bodisatva, a Terra da Extrema Alegria. É neste ponto que a gradual transformação da consciência em sabedoria se inicia. Esta sabedoria pura é a atividade ou função da verdadeira talidade. O processo de transformação é gradual e se dá na medida em que o bodisatva atravessa as Dez Terras de Bodisatva.

IV. O ESTÁGIO DO CAMINHO DO DESENVOLVIMENTO MEDITATIVO

No Caminho do Desenvolvimento Meditativo [bhavana-margha] (da permanência na primeira terra de bodisatva até a décima e última terra) a sabedoria que primeiro apareceu no Caminho da Visão, gradualmente elimina as manifestações dos apegos inatos de observador e observado, bem como as sementes destas manifestações. Ao atravessar as primeiras sete terras, o bodisatva elimina todas as sementes do apego inato ao eu de ambas a sexta e sétimas consciências (obstáculos das aflições; o observador). A única exceção são as sementes muito sutis daquilo que é conhecido como o 'aspecto espontâneo' do obstáculo das aflições. O bodisatva deve preservar estas sementes até o momento da realização do Estado Búdico, pois elas são a causa primária do contínuo renascimento dos bodisatvas e, dessa maneira, necessárias para o continuado progresso no Caminho do Bodisatva.

O apego sutil e inato aos darmas (o obstáculo ao conhecível; o observado) também é eliminado em estágios graduais, na medida em que o bodisatva procede através das dez terras. Na décima e última terra, apegos extremamentos sutis à todos os darmas conhecidos e suas sementes – juntamente com as sementes do 'aspecto espontâneo' do obstáculo das aflições mencionadas acima, necessárias para o renascimento – são completamente eliminadas. Então não pode mais haver qualquer tipo de apego, grosseiro ou sutil, ao eu ou aos fenômenos. O obstáculo das aflições e o obstáculo do conhecível são completamente eliminados.

V. O ESTÁGIO DA PERFEIÇÃO

Tendo delineado brevemente o caminho para o Estado Búdico e os estágios nos quais os vários obstáculos para essa iluminação são eliminados, nós estamos agora numa posição de discutir em maiores detalhes os tipos de sabedoria em termos de como elas são usadas no caminho.

Como nós já vimos, os aspectos distintos ou aprendidos do apego ao eu e aos fenômenos, observador e observado, são destruídos no momento da entrada do Caminho da Visão. A eliminação deles abre caminho para a aparição de uma sabedoria pura que tem dois componentes. É caracterizada como pura devido à sua total carência de contaminações (ashraya), ou seja, o fluxo da mente e seus apegos para fora, em direção aos diversos aspectos do mundo condicionado. Anterior a isso, a sabedoria usada como força guia no processo meditativo era impura, [a chamada] 'sabedoria “aplicada” preliminarmente' (prayogajnana), caracterizada por contaminações.

O primeiro dos dois componentes da sabedoria não-contaminante, é chamado 'sabedoria fundamental' (mulajnana). Ela é caracterizada como não-fazedora de distinções (nirvikalpa). No processo da sua aparição inicial, ela naturalmente destrói as sementes do apego distinto ao eu e aos darmas. A destruição das sementes e a aparição da 'sabedoria fundamental' é um processo instantâneo e simultâneo.

O segundo componente da sabedoria não-contaminante é baseado no primeiro, e por isso é chamado de 'sabedoria alcançada subseqüentemente' (prsthalabdajnana). É uma sabedoria expediente, que opera no mundo das distinções. Ela analisa as características dos darmas, entretanto não se torna apegada à estas características, como é o caso da 'sabedoria “aplicada” preliminarmente', que possui contaminação. A 'sabedoria alcançada subseqüentemente', reflete sobre as aparentes características da verdadeira talidade e dessa maneira é usada para eliminar as sementes do apego aprendido ao eu e aos fenômenos. Entretanto, o modo do seu funcionamento é gradual. Ela é empregada em várias técnicas meditativas para destruir aspectos separados das sementes aprendidas.

O FUNCIONAMENTO DA SABEDORIA

Geralmente a sabedoria funciona de duas maneiras. Ela age de maneira à subjugar a atividade fenomenal da mente (darmas) e então, num nível mais fundamental, ela elimina as sementes (bija) que são a origem desta atividade. A sabedoria e a consciência que fabrica distinções são como gelo e água. Quando a água congela, o gelo aparece; quando o gelo derrete, a água aparece. À nível da atividade fenomenal da mente, quanto maior o apego à distinções, mais fraco é o funcionamento da sabedoria; quanto mais forte o funcionamento da sabedoria, menor o apego pelas distinções. Para que o apego por distinções seja permanentemente eliminado, a sabedoria deve operar com suficiente base e poder, para superar não apenas a manifestação das distinções, mas também suas sementes, que são suas causas básicas. Outra imagem geralmente usada para descrever o processo, é aquela de luz sobrepujando o escuro. Se a luz puder não só preencher o escuro, mas também penetrar total e permanentemente suas barreiras, o escuro é permanentemente eliminado.

No início do caminho, o poder da sabedoria é fraco e o poder da mente que fabrica distinções é forte. Nos primeiros dois estágios do caminho, o dos Recursos e da Aplicação, não há manifestação da sabedoria pura, sabedoria caracterizada pela completa ausência de contaminações. De maneira à limpar a mente, para que as sementes de sabedoria pura possam crescer e finalmente se tornarem efetivadas, o bodisatva emprega temporariamente a 'sabedoria “aplicada” preliminarmente', que é caracterizada por contaminações. Ou seja, ela tende a buscar as características dos objetos mentais e, por natureza, depende deles como suporte. Utilizando a verdadeira talidade como uma característica perceptível da mente, esta sabedoria provisória utiliza sua própria caracterização da verdadeira talidade, como um suporte para a meditação sobre a vacuidade de observador e observado. Desta maneira, os aspectos grosseiros dos obstáculos distintos. são eliminados e os outros aspectos dos obstáculos distinto e inato são subjugados, ou seja, eles são parcial ou completamente impedidos de surgirem em um estado ativo de apercebimento.

Como uma ajuda à este tipo de meditação, o bodisatva gradualmente decresce a extensão da atividade fenomenal produzida pelas sementes dos dois obstáculos através do uso de 'resolução' (adhimaksa), um estado mental especial, de 'remorso' (hri) e 'vergonha' (apatrapa), ambos estados mentais positivos. 'Resolução', 'remorso' e 'vergonha' são todos darmas “técnicos”, que estão incluídos no [trabalho de Vasubandhu, chamado] “Cem darmas da escola Consciência-apenas”. 'Resolução' é explicada como aquele estado mental que examina os darmas e chega à uma decisão sobre suas naturezas. O emprego de 'resolução', ajuda o bodisatva a ver a natureza condicionada e vazia de todos os darmas, de maneira que ele não fique apegado à eles. 'Remorso' e 'vergonha', são o reconhecimento interno e externo de nosso próprio comportamento inadequado e de um desejo de mudá-lo.

Com a realização bem sucedida dos dois primeiros estágios, a balança muda. A “revanche” é a entrada no Caminho da Visão. Nesse ponto a sabedoria não mais funciona em total dependência da consciência que fabrica distinções. Pela primeira vez, o seu potencial não-contaminante realmente se torna operante como a base para mais progressos no caminho. Como já foi mencionado, a entrada no Caminho da Visão marca a experiência inicial da natureza da verdadeira talidade. Ela é então completamente realizada, na medida em que se atravessam as Dez Terras. A cada passo dado na eliminação progressiva dos obstáculos ao Estado Búdico, há um passo correspondente no desenvolvimento da sabedoria.

No Caminho da Visão, a 'sabedoria fundamental' instantaneamente destrói as sementes do apego distinto em relação à observador e observado, enquanto que a 'sabedoria alcançada subseqüentemente', é usada para eliminar gradualmente as várias características distintas que são uma obstrução para a verdadeira talidade. Durante este estágio, a 'sabedoria “aplicada” preliminarmente' não opera.

Nas primeiras sete terras do Caminho do Desenvolvimento Meditativo, todos os três tipos de sabedoria operam. A 'sabedoria “aplicada” preliminarmente', apesar de caracterizada por contaminações, funciona, pois apegos contaminantes ainda estão presentes e a prática ainda é intencional. Ou seja, envolve um ato de vontade, o que significa uma tensão entre dois aspectos da mente que competem [entre si]. A 'sabedoria alcançada subseqüentemente' é utilizada em meditações com características, enquanto que a 'sabedoria fundamental' é empregada nas meditações sem características.

Iniciando na Oitava Terra e continuando até o Estado Búdico, as contaminações e o apego inato ao eu são totalmente cessados (com exceção daquele apego extremamente sutil e espontâneo, necessário para o renascimento). Porque não há mais qualquer eu, o cultivo procede completamente espontâneo. Já que não há mais qualquer esforço pessoal, a 'sabedoria “aplicada” preliminarmente' não mais funciona (apesar de suas sementes não serem completamente eliminadas até o Estado Búdico). Toda meditação é sem características e utiliza a 'sabedoria fundamental', enquanto que todas as ações procedem espontaneamente do funcionamento da 'sabedoria ganha subseqüentemente'.

O DESENVOLVIMENTO DOS QUATRO TIPOS
DE SABEDORIA ILUMINADA

A 'sabedoria fundamental' e a 'sabedoria alcançada subseqüentemente' são classificações de sabedoria, ou seja, a atividade ou funcionamento da verdadeira talidade em termos de elas agirem ou não na distinção das características dos darmas. Os Quatro Tipos de sabedoria são outra classificação da atividade da verdadeira talidade, nesse caso, em termos das funções que elas herdam das oito consciências, das quais elas são transformações.

As primeiras cinco consciências perceptivas são transformadas na 'sabedoria da performance bem-sucedida' [krtyānusthāna-jñāna]; a sexta consciência, o centro de processamento perceptivo e cognitivo, é transformado na 'sabedoria da maravilhosa contemplação' [pratyaveksana-jñāna]; a sétima consciência, que ordinariamente macula as primeiras seis consciências com um eu e aflições relacionadas a ele, é transformada na 'sabedoria da igualdade' [samatā-jñāna]; e a oitava, a consciência armazém, é transformada na 'sabedoria do grande espelho' [mahādarsha-jñāna].

Tanto a 'sabedoria da igualdade' como 'sabedoria da maravilhosa contemplação'  começam a funcionar pela primeira vez no Caminho da Visão. Na medida em que o apego pelas distinções da sexta e sétima consciências diminui, o poder destes dois tipos de sabedoria aumenta. O funcionamento da 'sabedoria da igualdade' é ocasionalmente interrompido durante a Sétima Terra de bodisatva, quando existem contaminações (apegos inatos) na sexta consciência que evocam o funcionamento contaminante da sétima consciência como suporte. Isto ocorre pois o apego da sétima consciência por observador e observado ainda não foi completamente eliminado.

A 'sabedoria da maravilhosa contemplação' possui dois aspectos, correspondendo à compreensão da vacuidade do eu e da vacuidade dos darmas. Ambos funcionam tão logo não haja mais funcionamento contaminante da sexta consciência, que iria naturalmente interferir. Este tipo de sabedoria não está ativa durante o curso da meditação sem características. (Meditação sem características se torna predominante na Sexta Terra e é o único tipo de meditação da Sétima Terra em diante.)

Nas primeiras sete terras, o progresso que acontece tem haver com as transformações da sexta e da sétima consciências em suas respectivas sabedorias. Durante este período, meditações com características, que empregam a sexta consciência, são gradualmente descontinuadas e trocadas por meditações sem características. Na entrada da Oitava Terra, toda a atividade contaminante da sétima e sexta consciências, é permanentemente cessada e o funcionamento da 'sabedoria da igualdade' e da 'maravilhosa contemplação' procede espontaneamente e sem esforço.

Tanto a 'sabedoria do grande espelho' como a 'sabedoria da performance bem-sucedida' começam a funcionar apenas no momento da realização do Estado Búdico. A oitava consciência deve continuar a existir até esse ponto, como um receptáculo das sementes virtuosas contaminadas, que permitem ao bodisatva renascer e continuar o progresso no caminho da Oitava Terra até o Estado Búdico. No momento da entrada [no Estado Búdico], a oitava consciência se torna tão pura, que não pode mais servir como suporte para as sementes de darmas contaminados, não importa o quão boas. Apesar de que, à partir da Oitava Terra, a oitava consciência continue a agir como uma base de apoio para as aflições espontâneas extremamente sutis, que um bodisatva propositalmente preserva como o veículo de seu contínuo renascimento no mundo, em todos os outros sentidos a oitava consciência é imaculada e não mais é a causa do renascimento. Deste último ponto de vista, a Oitava Terra marca o início estabelecimento das fundações da 'sabedoria do grande espelho'.

A atividade da 'sabedoria da performance bem-sucedida' deve esperar pelo aparecimento das faculdades perceptivas puras e não-contaminantes de um Buda, pois as faculdades de um bodisatva, mesmo depois da Oitava Terra, são baseadas num corpo que é o resultado de sementes sutis de aflições e assim, não poderiam servir como suporte apropriado. Este tipo de sabedoria está ativa apenas quando a atenção é dirigida para as faculdades perceptivas. A fundação dela é selada quando o apercebimento da faculdade da forma pura, um aspecto da parte percebedora da oitava consciência, não mais se associa com as características dos objetos percebidos, ou seja, os dharmas surgindo da parte percebida da oitava consciência. (Isto também marca o surgimento inicial da 'sabedoria alcançada subseqüentemente'.)

OS QUATRO TIPOS DE
SABEDORIA E O ESTADO BÚDICO

Tendo discutido em que momento no caminho os Quatro Tipos de Sabedoria surgem, podemos agora descrever seu funcionamento depois da realização total da verdadeira talidade, quando se chega no Estado Búdico. Todas as sementes e todos os darmas, o universo inteiro -  tanto real quanto potencial, são refletidos sem distorção na Sabedoria do Grande Espelho. Sua ciência da verdadeira talidade é o funcionamento do componente fundamental deste tipo de  sabedoria, enquanto sua ciência da atividade de sementes e de darmas (como um aspecto da verdadeira talidade) é o funcionamento de seu componente subseqüentemente alcançado. A 'sabedoria do grande espelho' é equiparada com o aspecto do funcionamento do corpo de recompensa e da terra pura do Buda que nenhum propósito além daquilo já é em si mesmo (svasambhogakaya).

A 'sabedoria da igualdade' entende a natureza da igualdade entre eu e outro e de todos os seres. Ela aparece como imagens dos Budas, que são ilimitadas. É equiparada com aquele aspecto do corpo de recompensa do Buda que funciona pelo benefício dos outros (parasambhogakaya).  Mais especificamente, é o modo de sabedoria que o Buda usa para ensinar grandes bodisatvas. Também é chamada de corpo da grande transformação (nisyandakaya). Assim como é o caso da 'sabedoria do grande espelho', ambos os componentes dessa sabedoria funcionam para incluir tanto o aspecto da verdadeira talidade quanto aspectos “mundanos” em sua compreensão.

A 'sabedoria da maravilhosa contemplação' entende sem distorção as características individuais e universais de todos os darmas, tanto em suas aspectos de verdadeira talidade como em seus aspectos mundanos. De acordo com mestre Kuiji, ela "examina os méritos e habilidades de todos os seres e faz precipitar a chuva do Darma para destruir a grande rede de dúvidas e para beneficiar todos os seres sencientes." (59:32b)

A 'sabedoria da performance bem-sucedida' opera como os incontáveis corpos de transformação dos Budas e como as terras, com e sem contaminações, nas quais eles ensinam os seres sencientes. Ela se ocupa exclusivamente com aqueles darmas que são os darmas da percepção, ou seja, os corpos de transformação do Buda e os fenômenos que as faculdades desses corpos percebem. Dessa forma, apenas o componente subseqüentemente alcançado da sabedoria funciona em relação à ela.

Em outras palavras, o Buda emprega a 'sabedoria da performance bem-sucedida' para aparecer em seu corpo terrestre ordinário (e outros corpos de transformação) e para funcionar perceptivamente naquele corpo. Ele enxerga, ouve, sente cheiros, degusta e toca sem quaisquer obstruções ou distorções de sentimentos, não apenas o âmbito ordinário da percepção, mas de uma maneira ilimitada, universalmente no tempo e espaço.

Com a 'sabedoria da maravilhosa contemplação' ele conhece claramente, sem distorção ou obstrução, todos os darmas que são objetos de sua percepção e todos os outros darmas, que são exclusivamente os objetos de processos cognitivos. Desta maneira ele conhece as condições físicas e mentais de todos os seres e falam e agem de acordo em todas as várias maneiras necessárias para ensiná-los da maneira mais eficiente.

SUMÁRIO

A escola Consciência Apenas ensina que a nossa verdadeira natureza e a verdadeira natureza do mundo é consciência apenas, que é em ultima instancia entendida como sendo a verdadeira talidade. A verdadeira talidade é encoberta pelos apegos da consciência que fabrica  distinções ao observador e observado, ao eu e aos darmas. Estes apegos são paulatinamente superados no caminho do bodisatva pelo uso da sabedoria. Um componente da sabedoria, a sabedoria fundamental, percebe a verdadeira talidade como a natureza real e subjacente da consciência criadora de distinções. Como tal, ela elimina a confusão sobre princípio (visões desviadas, suas aflições acompanhantes e as sementes de ambos), radicalmente minando-a. O outro componente, sabedoria alcançada subseqüentemente, funciona no das próprias distinções para eliminar o apego à elas. Baseada na sabedoria fundamental, ela age para eliminar a confusão sobre os fenômenos, particularmente os darmas da ambição e outras aflições primárias. Quando da total realização da verdadeira talidade no Estado Búdico, o componente alcançado subseqüentemente, previamente usada como uma ferramenta para progredir nos estágios do caminho do bodisatva, é a modalidades através da qual o Buda opera no mundo das distinções criadas pelos seres sencientes e através da qual ele os ensina o Buddhadharma, um caminho para a transformação da consciência que cria distinções na verdadeira talidade e seus Quatro Tipos de Sabedoria.